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Marcos do desenvolvimento infantil, cada criança tem seu tempo?

Atualizado: 8 de ago. de 2021

Olá, obrigada por estar aqui, lendo sobre nossa história, espero que estas experiências te ajude a compreender o mundo e sua diversidade, de forma mais abrangente e acolhedora, com os que são diferentes, afinal, somos todos diferentes não é?

Hoje vou contar a história de como foi a primeira consulta com a Neuropediatra, e como nós lidamos com a suspeita do diagnóstico de autismo.

Ouvimos muito a frase "cada criança tem seu tempo", até dizemos isto, muitas vezes, para outros pais como forma de aconchego quanto à preocupação de algo que não está seguindo o ritmo desejado. Mas a verdade é que mesmo que cada criança tenha o seu tempo para adquirir uma habilidade ou atingir algum marco no desenvolvimento, é extremamente importante os pais estarem atentos e não se sentirem errados ao procurar algum profissional para pedir orientação. Muitos profissionais podem e devem ser procurados, pelos pais e ou cuidadores, para orientações específicas, há aspectos no desenvolvimento que um profissional generalista não é totalmente preparado para ajudá-lo. A avaliação de Psicólogos, Psicopedagogos, Fonoaudiólogos, Terapeutas Ocupacionais, entre outros, são extremamente importantes para o desenvolvimento adequado das crianças, e a intervenção precoce, se necessário, é o melhor método para ajudá-los.

Como contei nos dois posts anteriores "Da gestação ao parto" e "As primeiras crises sensoriais" caso não tenha lido, clique no nome ou link no final deste post, meu filho já apresentava a possibilidade de ter algum transtorno sensorial, quando chamado ele não atendia, por exemplo, parecia "surdo", que não ouvia. O pediatra na época achou que não valia a pena pensar no assunto naquele momento, pois clinicamente ele estava se desenvolvendo bem, saúde, altura, peso, etc.

Abaixo vou descrever alguns marcos do desenvolvimento até 3 anos de idade.

  • 1 mês = olha para a pessoa que a observa.

  • 2 meses = Sorri, e balbucia.

  • 3 meses = Sustenta a cabeça.

  • 4 meses = Alcança e pega objetos pequenos.

  • 5 meses = Consegue virar.

  • 6 meses = Mantém-se sentada, com apoio.

  • 7 meses = Segura objetos e os transfere de uma mão para outra.

  • 8 meses = Faz o movimento de "pinça" com os dedos indicador e polegar.

  • 9 meses = Senta sozinha, sem apoio.

  • 10 meses = Engatinha

  • 11 meses = Fica em pé, com apoio, dá passos com apoio.

  • 12 a 15 meses = Mostra, aponta o que quer, brinca com peças de encaixe simples, fala de 3 à 5 palavras, anda sem apoio.

  • 15 a 18 meses = Usa colher, constrói uma torre com dois cubos, presta atenção na música, anda sozinha quase correndo.

  • 18 a 24 meses = Consegue tirar uma peça de roupa. Constrói uma torre com três cubos ou mais, vocabulário com 20 a 50 palavras. Aponta figuras quando é solicitado, chuta bola.

  • 24 a 30 meses = Veste-se com supervisão. Constrói uma torre com seis cubos ou mais, forma frases com duas palavras. Pula com ambos os pés.

  • 30 a 36 meses = Brinca com outras crianças, interagindo com elas. Imita uma linha vertical com o lápis. Forma frases completas e se faz entender na comunicação. Arremessa uma bola com a mão. Período de amadurecimento para o desfralde.

Desde que nasceu, ele já era um bebê "durinho", ficava bem firme no colo, até se colocado mais em pé no colo, ele começou a sorrir com 1 semana de vida, bem antes do esperado. Aos 4 meses começou com a introdução alimentar, apesar da preferência dos profissionais ser de que, isso ocorra a partir dos 6 meses de idade, a antecipação foi acompanhada pelo Pediatra, pois ele ia iniciar na creche aos 5 meses, não houve problemas na introdução alimentar. Sentou com apoio aos 5 meses, e sem apoio por volta dos 7 meses. Ficou em pé sem apoio com 9 meses e "dançava" com a galinha pintadinha. Ele não demonstrava muito interesse em engatinhar, pois preferia dar passos com apoio, quando era extremamente necessário ele se deslocar, aonde não conseguia ir andando com apoio, ele se arrastava no chão, igual a um soldado, não com quatro apoios que é o mais comum a criança utilizar para engatinhar. Ele não apontava para objetos, resmungava e olhava em direção ao que ele queria, não usava a colher sozinho para comer, bem antes de 1 ano já prestava atenção às músicas, andou com 1 ano e dois meses.

Os balbucios não ocorreram de forma esperada, ele não falou as palavras "quer" ou "dá", o tão esperado mamãe ou papai também não vieram dentro do período esperado, suas primeiras palavras com 1 ano foram "I-a-i-a-ô" da música do Seu McDonald. Ele foi amamentado por mim até 1 ano e 1 mês, a interrupção foi feita naturalmente por ele, este assunto também rende outro post.

Apesar de nos sentirmos mãe de super bebês quando fazem algo antes do período esperado, é importante aqui salientar que todo aprendizado das crianças tem etapas, e se algumas delas estão sendo alcançadas antes do tempo é importante acompanhar para ver se os outros marcos estão, ao menos no tempo certo, pois pode ocorrer da criança "pular etapas" e atingir alguns marcos antes de outros, esses marcos não atingidos no tempo esperado, pode aparecer como uma dificuldade em outra habilidade um pouco mais à frente.

Por volta de 1 ano e meio, devido a fala ainda não ter vindo, não apontar para objetos, ignorar alguns comandos simples ou ignorar quando era chamado. o Pediatra entendeu que ali era o momento de dar um encaminhamento com a Neuropediatra, e lá fomos nós. Com os testes que ela fez com ele durante a primeira consulta, ela já sinalizou a possibilidade dele ser autista, porém antes do diagnóstico muitas outras coisas tinham que ser investigadas. Assim ela nos deu um batalhão de exames e encaminhamentos com outros médicos de outras especialidades, como o oftalmologista, para verificar se estava tudo ok com a visão, otorrinolaringologista, para avaliar a parte auditiva. Aqui vale uma ressalva, ele nasceu com a língua presa, era bem pouco, mas com 8 meses ele fez uma cirurgia no freio da língua.

No Oftalmo, foi tudo ok. Com a Otorrino, ele fez vários exames de audiometria, pois ele era muito novo para um tipo do procedimento e velho para outro, então foi bem difícil conseguir realizar o exame, em todos, não foi detectado que a audição social dele estava afetada, para saber com mais detalhes, sobre a audição, ela solicitou outro exame, Bera frequência específica, neste exame colocam uns eletrodos na cabeça, fone dentro dos ouvidos e o paciente não pode se mover durante todo o procedimento (entre 20 e 40 minutos), mesmo se ele dormisse seria impossível garantir que ele não se movesse por tanto tempo, qualquer coisa que o incomoda ele se mexe, a alternativa era realizar com ele sedado, não conseguimos nenhum lugar em Jundiaí que fizesse sem que precisasse que a Otorrino assumisse os riscos da sedação. Fui orientada a fazer pela USP em SP, na época o exame custava R$ 2.300 reais, o convênio médico cobre o exame, porém devido ao valor que eles pagam, R$ 500 reais, eu deveria arcar com a diferença de R$ 1.800 reais. Então infelizmente não foi possível realizá-lo pois não tínhamos o valor necessário. Como a audiometria havia constatado que a audição social estava ok, achamos melhor não submetê-lo a um exame tão invasivo no sentido de ter que ser feito com a sedação. A Neuro, pediu uma ressonância, que deu tudo ok, e alguns exames de sangue, um que detecta se a criança possui Síndrome do X Frágil, que as características são bem parecidas com o autismo, e o cariótipo com banda G, outro exame de sangue que detecta algumas síndromes.

Infelizmente, até o momento, não existe nenhum exame que detecte o autismo, o diagnóstico é feito por múltiplos profissionais, e após todas as avaliações necessárias, o Neurologista ou um Psiquiatra fecha o diagnóstico de autismo e seu nível, sendo leve para os que precisam de pouco apoio, moderado ou severo.

Imediatamente, após a primeira consulta, já recebemos o encaminhamento para Fonoaudióloga, Psicóloga e Terapia Ocupacional. A Fono começou a trabalhar a comunicação e a aquisição de vocabulário, a Terapeuta Ocupacional, devido o encaminhamento com o CID de autismo, fez algumas avaliações para verificar em qual área era necessário iniciar a intervenção e iniciou as terapias à partir do diagnóstico. Acreditem, Terapia Ocupacional, é bem mais complexa do que imaginamos, elas auxiliam no desenvolvimento motor, sensorial e cognitivos básicos, vou detalhar melhor em outro post referente ao que ele faz nas terapias.

Um requisito para fechar o diagnóstico, é o Psicodiagnóstico feito por um profissional da Psicologia que tenha especialização e que possa aplicar os testes, protocolos e avaliações necessárias. Com 2 anos e 2 meses ele fez o primeiro psico diagnóstico, demorei para encontrar um profissional pois não há muitos na área e o convênio médico não cobre o procedimento, então tive também que me preparar financeiramente.

A profissional fez uma seção comigo, para anamnese e para aplicação de um dos protocolos, duas seções exclusivamente com ele, e foi uma seção observar o comportamento dele na escola. A quantidade de seções pode variar conforme a resposta da criança às atividades solicitadas, e também quanto ao tipo de protocolo aplicado, podendo durar mais seções.

Na anamnese, é necessário relatar sobre vários assuntos, sobre como foi a gestação, o parto, os marcos do desenvolvimento, o comportamento da criança durante seu desenvolvimento até aquele momento. Na época ele não apresentava seletividade alimentar, porém comia rápido, quase não mastigava, não comia sozinho, e tinha que ficar segurando uma colher na outra mão, a dentição dele desenvolveu até mais rápido que o esperado, cortar a unha só se estivesse dormindo, dava para perceber que ele tinha um pouco sensibilidade. Ele já apresentava dificuldades em lidar com situações de frustrações, com bastante birras, mas com negociação era possível acalmá-lo. Em casa não observávamos comportamentos estereotipados, como balançar pra frente e para trás, balançar as mãozinhas, etc., também não havíamos observado, até aquele momento, ele andar nas pontas dos pés. Ainda não apontava para objetos quando queria, nem quando solicitado para apontar. Durante as brincadeiras, em muitos momentos enfileirava os brinquedos, por tipo, ou por cor, mas aceitava que mudássemos de posição os objetos que ele havia alinhado, não ficava bravo. A atenção dele era bem seletiva, e respondia bem quando era do interesse dele. A fala estava com atraso, considerando o que era esperado para a idade, utilizava palavras soltas, não formava frases com duas palavras, como esperado. Não vou entrar em muitos detalhes aqui para não me estender muito mais. Um protocolo utilizado, o M-Chat, foi preenchido por mim com questões do dia a dia dele e a pontuação atingida não apresentava risco de Autismo.

Outra ferramenta, foi o CARS, neste ele atingiu a pontuação 32, sendo até o 30 não considerável TEA, do 31 ao 36 TEA Leve ao Moderado, do 37 ao 60 ou maior, Autismo Grave. Neste teste, foi observado pela psicóloga, participação restrita nas relações pessoais, pouca interação com períodos curtos e não adequado à idade, andou na ponta dos pés (na escola), dificuldade nas brincadeiras de imitação, necessitando vários comandos, aceitou bem estímulos sensoriais como slimes, bolinhas de gel, etc., durante as atividades sensoriais, a terapeuta observou aumento na salivação. Preferência por brinquedos que giram, enfileiramento de objetos, quando queria algo levava a mão da terapeuta ao que queria, não apontava ou pedia.

Também foi aplicado o PEP 3 aonde o resultado foi: Cognitivo Verbal/Pré-verbal (Leve), Linguagem Expressiva (Moderado), Linguarem Receptiva (Adequado), Coordenação Motora fina (Moderado), Coordenação Motora Ampla (Moderado), Imitação Viso-Motora (Leve), Expressão Afetiva (Adequado), Reciprocidade Social (Adequado). O leve significa que precisa de pouca ajuda, moderado, significa que precisa de um pouco mais de ajuda, e o adequado conforme o próprio nome diz, ele está adequado ao esperado.

Resumindo aos 2 anos, o primeiro psicodiagnóstico apresentou características clínicas compatíveis com o quadro de TEA (Transtorno do Espectro Autista) que são: Interação restrita com o terapeuta, amigos e tias da escola, dificuldade na sustentação do contato visual, enfileiramento de brinquedos, atraso na fala e leve desconforto sensorial e tátil.

Como recebi esse primeiro psicodiagnóstico? Também vai render outro post, pois tenho muito o que falar, apenas adiando que não foi fácil, meu chão sumiu, bate um desespero, porque você não sabe como se portar diante da situação, não sabe o que esperar do seu futuro e principalmente, do futuro do seu filho.

Toda criança até os 3 anos de idade passa por muitos desenvolvimentos, dentre eles há o período que é chamado de poda neural aonde o cérebro faz uma "limpeza" nas chamadas sinapses que estão sendo menos utilizadas, elas são "deletadas" do cérebro da criança. Esse processo é natural, ocorre com todos, porém podem acontecer problemas durante esse processo e crianças que andavam, param de andar, que sorriem, param de sorrir, que falam, param de falar, pois o cérebro descarta erroneamente estas habilidades já adquiridas durante esse processo de poda neural. Por este motivo os profissionais não fecham diagnóstico de Autismo antes dos 3 anos de idade, porém, isso não significa que a família ou cuidadores não devem iniciar as intervenções necessárias, com fono, TO, psico, imediatamente ao identificar alguma necessidade. Meu filho já estava fazendo as terapias, o psicodiagnóstico antes dos 3 anos, ajudou as terapeutas a direcionarem melhor o tratamento.

A evolução dele e o diagnóstico final também vai ficar para outro post.

Espero que esta leitura tenha contribuído para seu aprendizado, nos mandem mensagens caso tenha alguma dúvida, queira saber sobre algo específico, ou que seja detalhado melhor algum ponto do texto.


Gratidão

Vanessa Cristina Borato Mafra


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