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Da gestação ao parto

Atualizado: 7 de ago. de 2021

Desde os 21 anos eu tomava anticoncepcional devido ter cistos no ovário, a Ginecologista que eu tratava na época chegou a me alertar que possivelmente eu teria problemas para engravidar, meu ciclo menstrual era completamente desregulado. Devido a isto, assim que casei, em Setembro de 2016 e decidi parar de tomar o remédio e "deixei rolar" acreditando que demoraria em torno de 1 ano para engravidar, para minha surpresa com 3 meses após ter parado de tomar o medicamento, lá estava eu, grávida.

A descoberta da gravidez foi algo bem engraçado, uma amiga do trabalho começou a falar para eu fazer o teste de gravidez, porque eu estava com a "anca" grande. Meu ciclo menstrual estava atrasado 15 dias, mas o ciclo anterior também atrasou 15 dias, então eu não estava nem um pouco preocupada, não tinha nenhum sintoma, fora o atraso, que para mim era comum devido aos cistos. Os sinais estavam ali, eu que não sabia entender. Apareceram acnes, um pouco mais que o normal em períodos pré-menstruais, e em locais diferentes do comum também, mas como eu tinha parado com o medicamento à pouco tempo, pensei que era algo hormonal, então depois de muita insistência desta minha amiga, eu comprei um teste de farmácia. Era uma segunda-feira, o segundo risquinho, no teste de farmácia, apareceu bem fraquinho, eu que estava toda despreocupada comecei a me preocupar, e agora?

Era positivo, negativo ou um falso positivo? Por via das dúvidas comprei mais dois testes, de outra marca, fiz mais um de noite, o segundo risco ficou um pouquinho mais escuro que do primeiro, e decidi fazer o 3º teste na manhã seguinte, pois dizem que a urina da manhã é melhor. Na manhã seguinte, fiz o teste e o segundo risquinho, fraco, mas um pouquinho mais escuro que os anteriores, estava ali. No fundo eu não conseguia acreditar, afinal, não estava sentindo nada, então naquele dia, depois de voltar do trabalho passei no hospital para fazer o exame de sangue, como eu havia feito o teste de farmácia, a médica riu da minha cara, e me parabenizou pela gravidez, e me deu a guia para fazer o exame de sangue no laboratório, como era de noite tive que esperar no dia seguinte de manhã para fazer o exame.

Ao chegar na clínica, fiquei muito ansiosa, frio na barriga, sensação de medo, euforia, alegria, tudo junto, fiz o exame, quase desmaiando de ansiedade, e tive que aguardar até as 14h daquele dia para saber o resultado. Após o almoço, antes das 14h, pois é claro que uma pessoa ansiosa ia tentar ver antes do horário marcado se o resultado já estava disponível, lá fui eu e minha amiga acessar o site do laboratório, e para minha surpresa, ou não rs, deu POSITIVO. Avisei meu esposo, que ficou muito feliz com a notícia, eu também fiquei muito feliz, eufórica, mas ao mesmo tempo com medo, afinal o bebê ia ter que sair rs, e a dor? Eu ia aguentar? Para quem não podia ouvir história de acidente ou cirurgia, não podia ver sangue que desmaiava, imagina como ficou a minha cabeça? Comecei a me tremer toda, tive que ir no ambulatório da empresa, como não podia tomar nada, me deram um chazinho para acalmar.

Me acalmei, e liguei para minha mãe, que estava no hospital, de acompanhante do meu avô, que estava internado desde antes do Natal, naquele dia ele e minha avó completavam 60 anos de casados, para nossa tristeza fazia algumas horas que ele havia parado de conversar, estava com os olhos fechados, mas fiz questão de que minha mãe contasse pra ele, pois ele estava muito ansioso pelo meu casamento e também para ganhar mais um Bisneto (ele já tinha 2 bisnetos), no dia seguinte, após passar o aniversário de casamento meu avô nos deixou. Conto essa parte triste para relatar o quanto Deus tem suas formas de fazer as coisas, que muitas vezes a gente não entente e não aceita, em um momento dor imensa de perder meu avô, minha mãe perdendo seu pai, ele nos presenteou com um bebê, para que pudéssemos conseguir passar por essa barra que não seria fácil.

Minha gestação foi tranquila, também foi desejada, não tive nenhum tipo de complicação durante a gravidez. Com 36 semanas minha Ginecologista me afastou do trabalho, pois eu estava com bastante dor nas costas, eu ficava muito tempo sentada, então ficaria de repouso por alguns dias, se possível até que o bebê nascesse. Então com 36 semanas e 5 dias (mais dois dias não seria considerado prematuro) levantei pela manhã, fui ao banheiro, e quando volto para sala, ao sentar no sofá, deu um escape que parecia incontinência urinária, aproveitei para tomar um banho, e quando fui sentar no sofá, novamente um escape ao levantar a perna, fiquei muito chateada, a essa altura ter incontinência urinária? Liguei para minha mãe, e perguntei se havia acontecido algo parecido com alguma das gestações dela, afinal foram 4, ela disse que não, mas para ficar mais tranquila era melhor ir no hospital, pois existia a possibilidade da bolsa ter se rompido. A imagem que temos de uma bolsa rompida é uma cachoeira, e comigo não passava de pequenos escapes ao levantar a perna para sentar.

Eu coloquei um absorvente, tanto para higiene se houvesse mais escapes, mas também tinha lido que era importante no caso de rompimento da placenta para o médico avaliar a cor, mas estava bem límpido, não parecia o líquido da bolsa. Quando a médica colocou o aparelho para me examinar, SHUAAAA, era minha bolsa que estava rompida sim. Como rompeu? Até hoje me pergunto, uns dias antes senti como se fosse um estalinho, só isso, sem dor, sem nada.

Com bolsa rompida, sem contração, la vamos nós, para a internação, eu estava tão feliz que não pensava em nada mais além, de que tinha chegado o dia de eu ver a carinha do meu filho, de pegar ele no colo, ouvir o chorinho.

Quando vieram colocar o acesso que caí na real, lembra da pessoa que desmaiava ao ver sangue? Que passava mal com histórias de acidentes e cirurgias? Pois bem, a ansiedade bateu, não conseguiram pegar a veia da mão, porque ela embolava, tiveram que pegar uma veia do braço, apesar dela doer mais achei que ela é mais prática do que na mão, me deram medicamento para indução, minha pressão arterial estava 16 por alguma coisa, e dali alguns minutos começaram as contrações.

Uau, que cólica forte que nada, e eu sempre tive muita cólica, mas aquilo ali? Não tinha nada de cólica forte, era muito mais dolorida. Colocaram o medicamento as 16h mais ou menos, as enfermeiras me orientaram a ir pro chuveiro, que ajudava na dilatação, e realmente ajudava, quando eu ficava no chuveiro dilatava em torno de 2 dedos, quando eu ficava na cama, dilatava 1 ou nada. Por volta das 20h mais ou menos, eu estava com uns 8 dedos de dilatação, o Obstetra foi me examinar, e sem aviso nenhum ele descolou a minha placenta, Uau uau uau que dor, nunca imaginei que seria possível suportar uma dor tão forte assim. Eu quis o parto normal pois a ideia de uma cesária me parecia muito mais apavorante do que o parto normal, pelo fato de me cortar, de amarrar os braços para não se mexer. Nessa hora eu perguntei ao médico quantos dedos faltavam dilatar para que eu pudesse tomar a anestesia, o Obstetra disse que se chegasse a 9 dedos já poderia dar. Eu poderia ir para o banho novamente, que era certeza que dilataria mais 2 dedos, mas a dor já estava tão frequente e forte que mesmo nos intervalos ainda tinha muita dor, então não consegui e rezei para chegar pelo menos com 9 dedos, as 21h o médico retornou e disse que havia chegado aos 9 dedos, e iriam preparar a sala de parto. Mas devido a toda burocracia, até prepararem a documentação e me levarem para a sala de parto, lá se foi mais 1h com dores intensas. Ali eu já não me importava mais com sangue, com corte, com nada, só queria que passasse a dor.

Após me prepararem na sala, o médico foi ver quantos dedos estava dilatado, e pasmem, parou no 9º, me deram medicação para estimular a dilatação, e nada, não evoluía, tomei a anestesia para o parto normal, mas nada da dilatação. Então os Obstetras disseram que se até as 23h não dilatasse mais nada iriam fazer a cesárea, pois eu estava desde as 10h da manhã com a bolsa rompida, tinha pouco líquido na placenta, era ruim para o bebê. E foi o que aconteceu, após passar por toda dor, da indução, que dizem que a dor é mais forte do que quando as contrações acontecem naturalmente, tive que fazer cesárea, o anestesista foi muito inteligente, ele colocou um acesso, quando deu a anestesia para o parto normal, então não teve que me furar de novo para a anestesia da cesárea. Meu baby nasceu as 23h e 42 minutos do dia 17 de Agosto de 2017. Fizeram os exames, deu quase tudo normal, a respiração dele estava muito ofegante, então decidiram colocar ele na UTI Neonatal de observação, como ele iria nascer de parto normal, havia formado bossa (a pele da cabeça se acumula no topo, que é a primeira parte do bebê que iria sair, formando como se fosse um excesso de pele solta, isso some nos primeiros dias após o nascimento), também o nariz dele nasceu torno, as orelhas um pouco fora do local, o coitadinho nasceu todo tortinho rs, mas isso logo sumiu, inclusive o nariz que achávamos que iria ficar torto, ficou certinho depois.

Mas qual o impacto de saber que seu bebê que acabou de nascer vai para a UTI Neonatal? Pânico, porque nessa hora você começa a achar que tem algo errado, que os médicos não disseram, eu não amamentei meu filho logo que nasceu, ele só veio para o meu ladinho e tiramos uma foto e logo já foi levado para a UTI. É uma sensação horrível. Fui para o pós parto, para esperar passar a anestesia e depois fui para o quarto, de madrugada a enfermeira veio para me ajudar a tomar banho, me trouxe algo para comer, mas o que eu queria mesmo era estar com o meu bebê. No dia seguinte por volta das 11h seria horário de visita dos pais na UTI Neonatal para falar com o médico, então eu e meu esposo poderíamos ver o bebê, mas não pude pegá-lo, ele estava em uma encubadora, segundo o médico, a respiração dele já tinha normalizado, não havia nenhuma outra complicação, mas ele só poderia ter alta da UTI para o quarto se mamasse no peito. O horário de amamentar era em seguida da visita, as mãmães ficaram na UTI e os pais saíram. Assim fui ter minha primeira experiência de amamentar meu pequenino. Mas, ele não pegou o peito, a Fonoaudióloga da UTI me deu orientações, e disse para não me preocupar, pois era normal ele não pegar de primeira, que o mais importante era ele ficar ali no meu colo. Ele estava sendo alimentado com leite humano intercalado com fórmula de 3h em 3h desde que foi para a UTI. A partir dali a cada 3h eu ia até a UTI para que ele pudesse aprender a mamar, mesmo eles dizendo que eu não precisava ir todas as vezes, que eu poderia descansar, mas eu não quis, eu queria que ele saísse logo de lá para ficar comigo. Infelizmente, mesmo com todo esforço, ele não sugava o suficiente.

Ele nasceu na quinta de noite, ficou a sexta inteira e no sábado de manhã, na visita dos pais e orientação do médico das 11h, ele disse que iria liberá-lo para o quarto, mas que ele ia ser acompanhado para só ter alta do hospital se estivesse mamando no peito. No final do dia do sábado, quase 2 dias na UTI, ele foi liberado para ir para o quarto, a cada 3h vinha a enfermeira para que eu amamentasse, ele não sugava suficiente, acabavam dando o leite no copo, para a glicemia dele não baixar. Uma das enfermeiras foi um anjo, ela aceitou que eu desse só o peito para medir a glicemia e ver se a quantidade que ele estava sugando era suficiente, para não ter que complementar com fórmula.

Uma estratégia que eu aprendi no hospital, e tive que continuar com ela vários dias depois que tive alta, foi retirar a roupinha dele, e se necessário passar algodão úmido nos pés dele, o problema das mamadas era que ele só queria dormir, não acordava, quando pegava o peito dava pequenas e poucas sugadas e já dormia de novo. Então ao deixar ele sem a roupa, o desconforto fazia com que ele acordasse e mamasse. Fica a dica para as mamães novas e futuras mamães.

Ele ficou um dia a mais no hospital, pois para ter alta teria que estar com os exames em ordem, a glicemia dentro do esperado, e deveria ter completado ao menos 24h de alta da UTI, graças a Deus a quantidade que ele estava mamando já era suficiente para manter a glicemia em um nível normal, não precisou tomar mais fórmula. Ele teve alta na segunda pela manhã, naquele dia estava muito frio, e era o dia mais frio do ano até aquela data.

Ao descer da maternidade, fiquei esperando meu esposo buscar o carro dentro do pronto atendimento, devido o frio, não sei se foi a mudança de temperatura, pois na maternidade todo o andar é climatizado, não sei se foi o barulho, ou se já era a hora dele mamar, esse menino começou a berrar, eu peguei ele no colo balancei, mas nada o acalmava, uma enfermeira me perguntou se eu queria amamentá-lo, eu fui em uma salinha e tentei, mas ele não pegou, só chorava, ao colocar ele no bebê conforto no carro, o berreiro foi ainda maior, nunca imaginei que um recém nascido teria tanto fôlego pra chorar daquele jeito, fiquei em choque, mas sabia que quando chegássemos em casa tudo ia se acalmar, poucos metros depois do carro começar a andar, ele já se acalmou, e eu também claro.

Quando chegamos em casa, a reação foi a mesma que muitos pais de primeira viagem, no hospital vem a comida no horário, tem enfermeira checando e ajudando trocar fralda, banho etc, agora eram só nós 3, então por onde começar? O primeiro dia é muito estranho, você não sabe se deita para descansar, se tem que ficar olhando o bebê, você fica completamente perdida, com medo de fazer algo errado, com medo do bebê parar de respirar, uma pira total né? Mas aos poucos você vai se acostumando, não é de uma hora para outra, mas tudo se ajeita. Infelizmente meu esposo voltou para o trabalho no dia seguinte da alta, então fiquei os 15 dias após a cesárea sozinha em casa, minha avó, morava perto, e alguns dias vinha fazer almoço para mim, minha mãe, eu sei que queria muito ter ficado comigo, mas infelizmente ela tinha que ir trabalhar, e não pôde me dar uma força.

Essa experiência foi única, e por mais que cada pessoa conte sua história, ela sempre vai ser única pois é diferente para cada pessoa e para cada gestação. Eu sempre amei muito meus pais, mas depois do que passei a admiração pela minha mãe tomou outro nível, um que eu jamais saberia que existiria sem passar por tudo isso.

Como o blog é para relatar minha experiência com o autismo, vou apontar algumas referências de pesquisas com minha gestação. Segundo Lacerda (2017, p 23) alguns fatores ou intercorrências que são apontados em algumas pesquisas sobre o autismo, que ocorreram com a gente foram: Idades dos pais (mãe 35, pai 33), depressão, estresse e ansiedade, uso de antidepressivos (quando engravidei já faziam 2 anos que havia parado de tomar), nascimento prematuro, nascimento por cesárea, dificuldade respiratória fetal, ruptura prematura da membrana, gênero masculino.

Apesar destas associações apontadas em pesquisas, ainda há o indício de que 83% dos casos de autismo diagnosticado é genético, ou seja, é passado de um dos pais ou dos dois para o filho (a), a maioria das crianças diagnosticadas são do gênero masculino, porém isso não significa, ainda, que a incidência realmente é maior em meninos do que em meninas, o que ocorre é que, nas meninas, a dificuldade em diagnosticar autismos na sua forma mais leve é muito mais difícil do que nos meninos, pois há algumas características que, nas meninas , socialmente, não são consideradas atípicas, devido o estereótipo de que as meninas são mais quietas e tímidas. Vou detalhar mais sobre esse assunto em outro post.

Espero que tenham gostado da minha história, se tiverem interesse em saber mais detalhes ou algo específico sobre esse período me mandem mensagem ou e-mail, terei prazer em compartilhar experiências.


Gratidão

Vanessa Cristina Borato Mafra



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